Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

15 junho, 2010

POEMAS



VOZ ACTIVA

Canta, poeta, canta!
Violenta o silêncio conformado.
Cega com outra luz a luz do dia.
Desassossega o mundo sossegado.
Ensina a cada alma a sua rebeldia.


Miguel Torga

13 junho, 2010

POESIA AO AMANHECER


Bom dia, meus Amigos

O momento não permitia grandes concentrações, vivia então uma revoada de sentimentos face ao que acabava de ver na televisão, pelo que demorei algum tempo a perceber o que me rodeava de facto. A avenida era como tantas outras e nem os edifícios nem as pessoas pareciam quebrar a normalidade. Algum tempo depois quando comecei a olhar com um pouco de atenção comecei a experimentar a grandeza das coisas e saindo de um pasmo principiei a mergulhar noutro. Por todo o lado sentia-se a presença de património que atravessava os séculos e possuía um valor inestimável. Não foi possível deixar de me sentir pequeno com a monumentalidade do Altar da Pátria, essa memória a Vítor Emanuelle II, o rei do Risorgimento. De seguida o Fórum, colocou-nos a viajar no tempo e não foi difícil colocar o pensamento nos degraus do Colisseo. Um império de 1000 anos ali estava em todo o seu esplendor. Mas a dimensão do que víamos, esmagava-nos por completo a cada esquina, em cada rua e em cada praça. Desde a Praça Nabona ao Pantheon, tudo era grande e magnífico. De Moscovo guardava um sabor de oriente, de limbo entre a Europa e a Ásia de planícies que sentem o amor pela pátria. Da cidade do Báltico foi a beleza do século XVIII que cativou. A capital da França impressiona pelo romantismo, por uma certa ideia de idade média escondida nos seus segredos, pela liberdade que não existe, mas que sabemos estar por todo o lado. Madrid guarda ainda memória de um tempo que se quis imperial, pela América e pela Europa, mas Roma, pelo contrário, é passado, pretérito longínquo, mas não só, atravessa o tempo até ao século XIX. Foi o império, a idade média, o rinascimento e o risorgimento. Qual destas épocas a mais esplendorosa é o que interrogamos a todo aquele cenário de pedras e de mármore que nos envolve e, por vezes, nos deixa quase sem fala. De facto, aquela cidade próxima ao Mediterrâneo que os povos germanos um dia levaram de vencida, pese embora o poder das legiões, das guardas pretorianas e das fortalezas, mas que face à podridão das estruturas e dos homens que as dominavam já não serviam de defesa, ainda nos fascina de forma particular com essa magia que o passado tem de nos prender o olhar e a memória.

RENÚNCIA

Agora, que não vens, é que sossego.
Lucidamente, nego
Tudo quanto sonhei.
Desaperto o nó cego
Que apertei
Na hora cega em que te conheci.
Sou eu de novo só, como nasci,
A subir o calvário
Sem ninguém que me valha.
Sem deixar o sudário
Em nenhuma toalha...

MIGUEL TORGA

Chegastes a Wand certo dia do fim de Agosto, ao sol-pôr. Não me recordo exactamente dos pormenores dessa aparição; eu não sabia que entráveis, não apenas naquela casa alemã, mas também na minha vida. Recordo-me tão-só que já estava escuro, e que os candeeiros, no vestíbulo, ainda não ardiam. Não era a vossa primeira visita a Wand, por isso as coisas tinham para vós um recorte familiar; também elas vos conheciam. Estava demasiado escuro para que vos distinguisse as feições, apercebi-me apenas que éreis muito calma. Minha amiga, as mulheres raramente são calmas: são plácidas, ou então febris. Estáveis serena à maneira de uma lâmpada. Conversáveis com os vossos anfitriões; dizíeis apenas as palavras que havia a dizer; fazíeis apenas os gestos que havia a fazer, e tudo era perfeito. Fui, nessa noite, de uma timidez maior que a habitual; teria desarmado a vossa própria bondade. No entanto, não vos queria mal. Tão-pouco vos admirava: estáveis demasiado longe. A vossa chegada pareceu-me simplesmente um pouco menos desagradável do que a princípio receara. Vedes, minha amiga, que vos digo a verdade.

MARGUERITE YOURCENAR, in “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”

“Em França há dois milhões de pessoas, designadamente mulheres, que trabalham e vivem abaixo do limiar da pobreza. Ainda assim, o governo quer obrigar os beneficiários do apoio social – um em cada três beneficiários do rendimento mínimo de inserção tem diploma equivalente ou superior ao ensino secundário – a aceitar o emprego que lhes é proposto para fazer baixar o desemprego. Esta política já foi aplicada nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Suécia. Sempre com a mesma consequência: o aumento da pobreza.”

ANNE DAGUERRE, “Empregos forçados para os beneficiários do apoio social”, in “Le Monde diplomatique”, Junho de 2005

Porto, 22 de Junho de 2005

10 junho, 2010

LEITURAS


Durante vinte anos Eszter viveu uma existência cinzenta e monótona, fechada sobre si própria, esperando a morte e sonhando com o retorno de um amor impossível. Até ao dia em que, inesperadamente, recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou e graças ao qual encontrou, por um breve período, sentido para a sua vida. Grande sedutor e canalha sem escrúpulos, Lajos não só traiu Eszter como destruiu a sua família, tirando-lhe tudo o que possuía. Agora, depois de uma ausência prolongada, regressa e Eszter prepara-se para o receber comovida e perturbada por sentimentos contraditórios.

Sándor Márai nasceu em 1900, em Kassa, uma pequena cidade húmgara que hoje pertence à Eslováquia. Passou um período de exílio voluntário na Alemanha e na França durante o regime de Horthy nos anos 20, até que abandonou definitivamente o seu país em 1948 com a chegada do regime comunista, tendo emigrado para os Estados unidos. A subsequente proibição da sua obra na Hungria fez cair no esquecimento quem nesse momento era considerado um dos escritores mais importantes da literatura centro-europeia. Foi preciso esperar várias décadas, até à queda do regime comunista, para que este extraordinário escritor fosse redescoberto no seu país e no mundo inteiro. Sándor Márai suicidou-se em 1989, em San Diego, na Califórnia, poucos meses antes da queda do muro de Berlim.
O romance As Velas Ardem até ao Fim, já publicado nesta colecção, fui entusiasticamente aclamado, tanto pela crítica como pelo público.

Também neste romance as velas arderam até ao fim, também neste livro se aguarda a chegada de alguém que é o decisor da história, também aqui se revela um amor impossível. Contudo, neste romance uma dúvida nos acolhe. Como é possível que um amor, por muito grande amor que possa ser, pode aturar um canalha, pode permitir que um mesmo homem, enganador e miserável no seu relacionamento para com os outros, possa desgraçar a vida de alguém até ao fim? Não conseguimos responder a esta questão, pois cremos que não será de amor que aqui se falará, pois uma atracção por alguém, só pode ser amor quando esse alguém comportar gestos e sentimentos de grande amizade e cativadores, o que nunca foi o caso deste Lajos. Não chega dizer que não chegava a ter consciência dos seus próprios actos, das suas conversas mistificadoras. Lajos não era um inimputável, apenas um artista da boa vida, cavalgando sobre a dos restantes. Como amar eternamente alguém assim?

09 junho, 2010

POEMAS


SÚPLICA

Não digas, musa,
Por quantos versos reparti o pranto
Que chorei neste mundo.
Não contes
Os mil segredos que te confiei
Nas horas de abandono.
Não reveles à vida
O amor que lhe tive
E de que fostes única confidente.
Perdição consciente,
Que mais ninguém me veja
Nesta triste nudez de sonhador.
Que o teu silêncio seja
O meu pudor.

Miguel Torga

06 junho, 2010

POESIA AO AMANHECER


Bom dia, meus Amigos

Há coisas que sabemos de antemão e algumas, conhecemo-las tão bem que nem nos ocorre a ideia de que não vamos pensar nelas nos momentos necessários. Mas, na verdade, esquecemos. No fundo, agimos condicionados por um quadro mental já construído, interiorizado através de um processo evolutivo escondido. É assim com as coisas que vemos e com as pessoas que abordamos. Olhamos para elas ao aproximarmo-nos e formamos uma imagem que vai modelar o nosso tom de voz, os nossos juízos de valor. Mário é um italiano de Turim. Já o tinha encontrado uma vez, mas na verdade quase não chegamos a conversar. Desta vez, voltou a aparecer e então recordei a ideia que já se encontrava formada. Com um ar aciganado, nem parecia um trabalhador de seguros. Faltava só confirmar se o resto se assemelhava ao tal ar. Contudo, ao segundo dia, o italiano revelava-se um homem gentil e muito sensível. Para além da actividade profissional na indústria seguradora, faz parte de um grupo de dança que constrói espectáculos que reconstituem as figuras históricas do renascimento, tendo até viajado pela Europa, representando. Fez de nosso guia, mostrou-nos a zona histórica da cidade, conversamos imenso e ficamos amigos. Tudo isto só vem dar razão à ideia expressa de que não basta chegar, é necessário observar e conhecer, deixar que os outros falem e possamos escutar o que dizem, o que pensam e, sobretudo, como pensam. Se nos precipitarmos podemos correr o risco de não chegar a alcançar a amizade. Para isso já nos bastam as paixões, as quais só nos permitindo conhecer a superfície, nos arrastam tantas vezes para mares desconhecidos e quando não nos afogamos, tantas vezes damos à costa maltratados. Claro que sabemos tudo isto de antemão, mas normalmente não evitamos essa tentação de errar.

A VILA DO ALVITO

A vila de Alvito
Tem ruas e praças
Homens e mulheres
E muitas desgraças.
A vila de Alvito
Tem dois lavradores.
Tem muita riqueza
E raros amores.
A vila de Alvito
Tem uma cruz ao lado:
Quem manda na vila
Não lhe dá cuidado.
Malteses, ganhões,
Sangue misturado.
Na vila de Alvito
É que eu fui criado.

RAUL DE CARVALHO, in “O Nosso Amargo Cancioneiro”

Creio ter-vos dito que a princesa de Mainau me havia contado a vossa história. Melhor seria dizer, a história dos vossos pais, porque a de uma rapariga é toda ela interior: é um poema antes de tornar-se um drama.

MARGUERITE YOURCENAR, in “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”

“Dizendo «não» ao Tratado Constitucional, a maioria dos franceses disse também «sim» a mudanças profundas, tanto no seu país como à escala europeia.”

ANNE-CÉCILE ROBERT, “Da rebelião à reconstrução”, in “Le Monde diplomatique”, Junho de 2005

Porto, 21 de Junho de 2005

05 junho, 2010

LEITURAS


GALILEU GALILEI (1564-1642), nascido em Pisa, é um dos mais célebres homens de ciência da Europa e uma das figuras mais emblemáticas do período que se convencionou chamar “revolução científica”. Na sequência das suas excepcionais descobertas astronómicas, feitas entre 1609 e 1611 com o auxílio do telescópio, iniciou uma ampla campanha em favor do heliocentrismo coperniciano, lançando um ataque implacável à filosofia natural aristotélica, envolvendo-se em debates, disputas de prioridade, e acesas polémicas que culminariam com um famoso processo inquisitorial em 1633. Fez desenvolvimentos da maior importância cientifica em mecânica, especialmente no estudo do movimento, e durante a sua carreira deu aos prelos alguns dos mais influentes textos de ciência do século dezassete, como o Sidereus Nuncius (1610), o Il Saggiatore (1623), o Dialogo sopra i due massimi sistemi (1632) e os Discorsi e dimostrazioni intorno a due nuove scienze (1638). Galileu é habitualmente apresentado como o primeiro cientista moderno, uma descrição talvez simplista, mas que sublinha correctamente o facto de, para além das suas notáveis descobertas, ter também desempenhado um papel único na redefinição das metodologias e dos objectivos de várias disciplinas científicas, no uso inovador dos textos impressos de ciência, na implantação de uma retórica científica própria, e no lançamento de habilidosas estratégias de aproximação a mecenas científicos.


Henrique Leitão (n. 1964) é investigador no Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia e docente no Mestrado em História e Filosofia da Ciência, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem uma vasta obra publicada sobre diversos aspectos da ciência europeia nos séculos XV a XVII. É o coordenador da comissão científica encarregue da publicação das obras de Pedro Nunes, um projecto da Academia das Ciências e da Fundação Calouste Gulbenkian, e foi o coordenador dos projectos de catalogação e estudo dos impressos e manuscritos científicos antigos na Biblioteca Nacional de Portugal. É membro de várias associações académicas nacionais e estrangeiras entre as quais se destaca a Academia das Ciências de Lisboa, a History of Science Society e a European Society for the History of Science (membro do «Scientific Board»). É o único português membro da prestigiada Académie Internationale d’Histoire des Sciences.


Já não recordo o momento em que Galileu chegou até mim, mas desde sempre ficou ligado, às estrelas e ao universo e a essa amada Florença. Mais tarde, o poema de Gedeão trouxe até mim essa áurea romântica da resistência, que no caso presente, nada teve de romântico, pois a violência criminosa da inquisição, nada nem ninguém poupava nessa sanha de seleccionar os crentes e condenar os que supostamente desobedeciam. Galileu trouxe ainda essa magia de alimentar o sonho olhando o céu nocturno onde as estrelas navegam nesse imenso mar da eternidade. Neste seu primeiro trabalho, até o título alimenta a fantasia, Mensageiros das Estrelas. É verdade que é um livro técnico, um relato de uma contínua observação de descoberta, mas é ao mesmo tempo uma viagem pelo novo, pelo desconhecido que Henrique Leitão através de uma assombrosa introdução nos coloca no centro da ciência que obervava o universo no início do século XVII.

Free Web Counter
Site Counter