Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

09 Novembro, 2009

POESIA AO AMANHECER


Bom dia, meus Amigos

Há dias alguém explicava que as crianças, mesmo logo à nascença transportam consigo instintos próprios de sobrevivência o que as leva a nadar se caírem à água e, neste caso, fazem-no naturalmente e sem pânico. Já vimos que é assim. É a carga genética que trazemos connosco que permite que a espécie sobreviva ao longo dos tempos, se adapte a novas situações, se molde às mesmas e saiba encontrar o equilíbrio que faz a harmonia entre o meio e o homem. Agora já não é bem assim, mas isso é diálogo para outro dia. O que acontece é que ontem estava sentado no barbeiro que ainda é de outras épocas e tem o local de trabalho num espaço exíguo e como sempre escutava a rádio numa daquelas emissoras locais. Naturalmente que o meu barbeiro está adaptado ao meio ambiente que o rodeia e, portanto, integrado. Digamos que há a tal harmonia, apesar do letreiro à porta ser vanguardista, “Silva, cabeleireiro de homens”, por via das dúvidas. Para todos nós, entre um Requiem e a música pimba não há hesitações por toda uma série de razões, culturais e não só. Para facilitar, diria que é uma questão de selecção, mas de vez em quando lá vem até ao ouvido uma daquelas canções alegres, letra a condizer que nos arrastam para uma infância que as constantes novidades tornam cada vez mais longínqua. E o nosso ouvido ali fica a escutar, por vezes, até com um sorriso maroto. Não convém exagerar, mas de longe a longe não recusamos o som. Será uma questão de instinto? Não sei, mas se assim não fosse, nem o S. João que se aproxima teria o interesse e a alegria que nos faz voltar todos os anos.

O CORAÇÃO E O TEMPO

Meu sonho, meu coração;
Caminho errado e sempre certo
De quem do amor fez razão
De sentir a vida mais perto.

Meu sonho, meu coração;
Destino de lume e vento
Que bebe nos seios da opressão
O veneno e o leite de cada momento.

Meu sonho, meu coração;
Segredo idílico de águas e areias
Gerando no ventre de cada estação
O sangue e o sol da secura e das cheias.

Meu sonho, meu coração;
Imperfeito vestígio deste viver
Que, dócil, se faz triste e vão,
Sem alento para criar ou morrer.

Meu sonho, meu coração;
Humano indício deste viver
Que, rebelde, refaz a alegria e a mão,
Sem receio de lutar e crescer.

ORLANDO DA COSTA, in “O Nosso Amargo Cancioneiro”

Morava numa simples rua pardacenta dos arredores de Viena, mas há momentos em que basta uma árvore despontando atrás de um muro para nos lembrar que existem florestas. Tive, nesse dia, através de todo o meu corpo espantado por voltar a viver, a minha segunda revelação da beleza do mundo. Sabeis qual foi a primeira. Como na primeira, chorei, não tanto de felicidade, nem de reconhecimento; chorei só de pensar que a vida era tão simples, e seria tão fácil se nós próprios fôssemos suficientemente simples para a aceitar.
Aquilo que eu censuro à doença é ela tornar a renúncia demasiado cómoda. Julgamo-nos sarados do desejo, mas a convalescença é uma recaída, e verificamos, sempre com espanto igual, que a alegria ainda nos pode fazer sofrer.

MARGUERITE YOURCENAR, in “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”

Numa altura em que se assinala o primeiro século sem Bordalo Pinheiro, três museus tutelados pelo Instituto Português de Museus abrem janelas para as influências que este criativo deixou em diferentes áreas. O mundo de Rafael não se confina apenas ao Zé-Povinho, ao caricaturista ou à louça das Caldas. Ele está mais além.

MANUELA GARCIA, “Fantástico é Bordalo”, in “História”, Maio de 2005.

Porto, 07 de Junho de 2005

08 Novembro, 2009

LEITURAS

Nestes primeiros anos do século XXI, o mundo apresenta numerosos sinais de desregramento. Desregramento intelectual, caracterizado por um ímpeto das afirmações identitárias que torna difícil qualquer coexistência harmoniosa e qualquer verdadeiro debate. Desregramento económico e financeiro, que arrasta todo o planeta para uma zona de turbulências com consequências imprevisíveis e que é o sintoma de uma perturbação do nosso sistema de valores. Desregramento climático, que resulta de uma longa prática da irresponsabilidade…
Terá a humanidade atingido o seu «limiar de incompetência moral»?
Neste oportuno retrato do início do milénio, o autor procura compreender como se chegou a esta situação e como se poderá sair dela. Para ele, o desregramento do mundo deve-se menos a uma «guerra das civilizações» do que ao esgotamento simultâneo de todas as nossas civilizações, nomeadamente dos dois conjuntos culturais de que ele próprio se reclama – o Ocidente e o mundo árabe. O primeiro, pouco fiel aos seus próprios valores; o segundo, fechado num impasse histórico.
Um diagnóstico inquietante mas que termina numa nota de esperança: o período tumultuoso em que entrámos poderá levar-nos a elaborar uma visão finalmente adulta das nossas prerrogativas, das nossas crenças, das nossas diferenças e do destino do planeta que nos é comum.


Nascido no Líbano em 1949, Amin Maalouf vive em paris desde 1976. Grande repórter durante 12 anos, realizou missões em mais de 60 países. Antigo chefe de redacção do Jeune Afrique, onde também foi editorialista, consagra hoje a maior parte do tempo à pesquisa para os seus livros.
É autor de várias obras, entre elas a premiada: As Cruzadas Vistas pelos Árabes (Prix des Maisons de la Presse). Na Difel, para além desta obra, estão também publicadas Samarcanda, Os Jardins de Luz, O Século Primeiro depois de Beatriz, Escalas do Levante, As Identidades Assassinas, O Périplo de Baldassare, O Amor de Longe, Origens, um fresco histórico sobre as suas próprias origens, e, mais recentemente, Adriana Mater, um libreto de ópera.
Um Mundo sem Regras inscreve-se na tradição do seu ensaio As Identidades Assassinas, e que está hoje no programa de numerosas universidades por todo o mundo.


O livro chegou às livrarias com muito alarido, muitos anúncios, muitas palavras elogiosas e, se hoje em dia tais atributos devem gerar em nós o activar das defesas do pensamento, não significa que a curiosidade e o desejo de conhecer não nos levem à procura do que parece ser diferente. Uma ou duas vezes olhei de soslaio para o “Um Mundo sem Regras” deste Amin Maalouf que nos havia mostrado “As Cruzadas vistas pelos Árabes” e fui deixando para ocasião próxima o conhecimento do que nos diz este intelectual francês de nascimento árabe. Até que mão amiga me trouxe à leitura o pensamento deste escritor que já foi ou ainda é jornalista. Tenho de confessar que a desilusão nasceu com as primeiras linhas. Percebi de imediato, não por inteligência minha, mas pela clareza do discurso que não nos vinha trazer esperança mas apenas o consolo da servidão, dessa que se aloja em nós e nos mostra um mundo de vencidos com a sorte já trazida nos genes da nascença. Acresce que nem sequer é novo o discurso. Já outros, noutro tempo e noutras crises do capitalismo nos trouxeram este discurso amaciador. Sim, capitalismo, a palavra que o poder descobriu no ano transacto. Guardada em gavetas sebentas, voltaram a reeditá-lo para explicar essa trombada que se abateu de novo sobre os pobres, sempre sobre os pobres e de alguma forma sobre todos aqueles que lhes estão próximos, mesmo que a vida lhes possa proporcionar algum conforto material e espiritual. Maalouf utiliza apenas cinco vezes a palavra capitalismo, a medo e quase escondido. O que gosta de falar mesmo este intelectual francês que se serve do nascimento e adolescência libanesas para melhor se colocar numa posição de crítica ao mundo árabe, o que gosta mesmo de falar é do Ocidente e da comunidade internacional. Ah, senhor Maalouf as coisas que poderíamos contar do nosso Ocidente e da comunidade internacional. Creio que sabe do que falo, mesmo não dizendo. Diz-nos a certo passo, que “Após a queda do Muro de Berlim, soprava um vento de esperança no mundo”. Para quem soprava esse vento? Não me diga que acredita no que escreve. Não consigo levar tão longe a sua ingenuidade. Ao longo das quase 200 páginas do livro coloca-se no pedestal de uma pretensa esquerda que por cima das calamidades, das desgraças, das violências, dos dramas, que esta casta que nos governa provoca no mundo, para perguntar o que pensam uns e o que pensam outros, ou dito talvez de outra forma, o que pensa a esquerda e o que pensa a direita. Sim, pois, que eu Amin Maalouf aqui estou para com o meu discurso de alta moral dizer o que está errado no mundo e o que está errado na acção de uns e de outros, enquanto no seu conforto e no seu comodismo, vai usufruindo das migalhas que essa casta vai deixando nas margens do caminho. Enquanto leio este “Um Mundo sem Regras” o canal Odisseia vai passando o documentário sobre os acontecimentos no Chile há 35 anos atrás. A vitória de Allende, a esperança, sim a esperança senhor Maalouf, mas dos pobres, não dos pobres de espírito como o são alguns intelectuais ou seus imitadores, mas daqueles que são capazes de sonhar com um mundo diferente, mais justo, mais equilibrado, mais equitativo, sem Ocidente e sem comunidade internacional, esses pobres a quem Allende passou a distribuir um litro de leite por dia. Sabe senhor Maalouf o que pode ainda hoje significar um litro de leite por dia? Não sabe e se já se apercebeu, certamente que disfarça como o faz no seu livro. E finalmente o golpe, os militares chilenos utilizando as armas para defender os interesses do Ocidente e da comunidade internacional, os mesmos interesses pretorianos que vão sustentar 25 anos no poder esse excremento que deu pelo nome de Augusto Pinochet. Diga-me senhor Maalouf que fala horrorizado dos mais de 3 000 cidadãos dos EUA que morreram nas Torres Gémeas, porque não diz uma única palavra sobre os mais de 30 000 chilenos que morreram nas prisões, desapareceram ou ficaram prisioneiros e exilados durante largos e largos anos, também no dia 11 de Setembro? Sim, é verdade o senhor diz que há certas coisas que não deviam ser feitas mas com que condescendência o diz, o menciona. O resto são críticas ao mundo árabe unindo na mesma expressão essa elite bastarda que está no poder e faz parte do seu Ocidente e da sua comunidade internacional e aqueles que mesmo seguindo caminhos errados, quem não erra quando se percorrem caminhos novos?, procuram uma estrada diferente para as populações árabes. Que cómodo que é o seu discurso. Pena é que o canal Odisseia nos traga novo documentário, desta vez sobre as crianças de Faluja que nascem deformadas, monstruosas nas suas formas e feições para desespero das mães que se recusam a gerar filhos para não viverem esse drama de amamentarem crianças disformes que foram deixadas pelas bombas do seu Ocidente e da sua comunidade internacional plena de liberdade e de liberdades.
Não, o meu mundo não é nem podia ser o seu. O senhor Maalouf é um escritor famoso, conceituado, ganha certamente muito dinheiro, tem mesa farta e permite-se dar recados ao mundo, sobretudo ao mundo que obedece. Sou tão só uma pessoa simples que do mundo apenas pode escutar e não deixarei de reflectir nas suas palavras, mas não se iluda, pois estou crente, sem fé, apenas acredito, que muitos outros como eu seguirão outro caminho, não o da obediência, não o da sujeição, não o do pensamento castrado ao conforto e ao comodismo de alguns valores materiais. Com muitos erros, muitos defeitos, imensas imperfeições, mas sobretudo, com muitos sonhos e muitas utopias a gerar certezas continuo a escutar vindo dos subterrâneos da Terra, da lonjura dos tempos, talvez até do infinito das estrelas, vou escutando todos os dias provindo do fundo da estrada da vida, a voz doce dessa Simone brasileira murmurando em poema cantado,
“caminhando e cantando e seguindo a canção (…) Vem, vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

30 Outubro, 2009

POEMAS


INVENTÁRIO

Havia
uma lâmina de sal
e um rio matinal correndo a nossos pés

Havia
uma pedra acesa no limiar de cada dia
e a memória dos passos ao redor do corpo

Havia ainda
uma guitarra de dedos aquáticos
e um pássaro de lume
rasgando o coração da noite


II

Acendo a lâmpada do sonho
e olho-te
os olhos desertos de tanta ternura
o desejo derrama sobre os nossos corpos
a sua luz torturada
na nossa pele respira a espera
de todas as ausências

Caminhamos seguros
nenhum olhar nos deterá agora
Sabemos que ao virar do verão
um jardim de água espera por nós
e que finalmente escutaremos
a nossa voz
na mudez comovida das palavras
desarmadas

Regresso
ao lume dos teus olhos
Mas os teus olhos são dois pássaros receosos
têm medo das palavras
que secretas
não dizes
Medo de respirar a sede
das memórias proibidas
de acender estrelas
com cintilações desconhecidas

No silêncio do teu abraço
cresce a recusa da minha pele
magoada
Os teus olhos são um espelho
de imagens gastas
de melancólicas viagens
E no meu coração silenciou-se
a campainha que chamava
por ti

Parto
Vou à procura de um
relógio de insónia
de palavras derramadas de ternura
flutuando ao redor do fogo

Isabel Constancinho

11 Outubro, 2009

POESIA AO AMANHECER


Bom dia, meus Amigos

Procurei entender sempre a vida como um longo caminho a percorrer durante o qual, como alguém já disse, se vai lançando sementes para a berma da estrada, procurando que um dia nasçam flores, sabendo de antemão que esse campo florido surgirá muito para além de nós. Ao longo desse caminho, vamos encontrando aqui e ali motivos de alento, sinais de que o caminho é certo e devemos prosseguir, teimar na procura do que nos parece certo e correcto, do interesse colectivo, do bem comum para todos. Nessa arremetida pela vida fora sempre dei uma importância muito elevada às palavras, procurando que as mesmas traduzam ideias, pensamentos, sentimentos, formas de estar. Talvez por isso, agora aqui estou, exactamente…, sem palavras. Entre as coisas que acredito, uma delas tem um valor que não sei mensurar tal a sua dimensão, que são os amigos e as amizades. Tem sido, um motivo de alegria, saber que aqui e ali as sementes dão fruto, saber que não estou só nesse porfiar por um mundo humano diferente, na plenitude do que somos capazes na utilização de tudo o que temos de positivo. E essa alegria é maior quando tantas vezes descubro que os meus amigos chegaram primeiro ao destino e têm paciência e generosidade para me abraçarem no seu conceito de vida e de diálogo. Além do mais conseguem algo que não fui capaz, surpreender pela imaginação, a criatividade e elevar esse valor de ser generoso a um patamar que não consigo alcançar. Foi assim, com estes termos que descrevi e outros que não encontro que na última sexta-feira me surpreenderam de forma imprevista e inesperada. Estavam lá quase todos aqueles que ao amanhecer têm essa paciência de quotidianamente me lerem os escritos que me vêm ao pensamento. Foi nesse momento que comecei a não saber o que fazer e muito menos o que dizer. O que se seguiu depois, não consigo descrever, muito menos sei como agradecer tanta nobreza. Costumo dizer que a palavra obrigado abarca uma grandiosidade elevada, mas é pouco, muito pouco para as circunstâncias. Tenho dito que raramente sou feliz e o que me proporcionaram viver veio demonstrar que tenho tido razão, pois esse momento sublime em que nos sentimos bem, não é só raro, ocorre apenas uma vez. No dia seguinte quando vi a chegada da noite no interior de uma pequena floresta no Gerês e observava a intensidade da luz da estrela polar percebi que por muito brilho que possa adquirir e pese embora nos visitar todos os dias, é apenas um ponto no interior do universo, um grão de poeira na imensidão do infinito. Pois foi um pouco assim que me senti, um pequeno ponto, incapaz de retribuir a grande prova de amizade que me demonstraram e que, sendo um incentivo, nunca saberei como retribuir. Foram até ao ponto de incluírem os ausentes, o que me deixa outro agradecimento sem retribuição. Não vou dizer muito mais, apenas que vos ficarei eternamente grato pelo gesto, pela forma e pelo conteúdo, por esse momento que gravarei no meu pensamento, como um momento inesquecível, porventura, o mais inesquecível. Já tinha dado os vossos nomes às estrelas do céu, mas agora quando à noite procurarem observá-las vão encontrar o nome, uma flor e um livro. A flor pela amizade e o livro pelos ensinamentos.

Quero que ao limpo amor que recorrera
meu domínio, descansem os cansados,
sentem-se à minha mesa os obscuros,
durmam sobre a minha cama os feridos.

Irmão, esta é a minha casa, entra no mundo
da flor marinha e pedra constelada
que levantei lutando na pobreza.
Nasceu o som aqui em minha janela
como num caracol sempre crescendo
e foi fincando as suas latitudes
na minha desordenada geologia.

Tu chegas de abrasados corredores,
vens de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te destino,
água e espaço da minha Oceânia.


PABLO NERUDA, “Canto Geral”, in “Presentes de um Poeta”

Sempre me pareceu que a música deveria ser o excesso de um enorme silêncio.
Em menino, desejei a glória. Nessa idade, desejamos a glória como desejamos o amor: Precisamos dos outros para nos revelarmos a nós próprios. Não digo que a ambição seja um vício inútil; pode servir para espicaçar a alma. Simplesmente, cansa-a. Não sei de nenhum êxito que não se compre com mentira; não conheço ouvintes que não nos forcem a omitir ou a exagerar qualquer coisa.

MARGUERITE YOURCENAR, in “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”

Em Portugal, o século XX nascia extasiado pelos maravilhosos progressos do automóvel. Mas o novo meio de transporte havia de impor uma disciplina acrescida às sociedades da época. Os novos Códigos da Estrada desencadearam reacções naturais de incomodidade.

MANUEL DO CARMO, “O primeiro Código da Estrada - Pela Direita » ”, in “História”, Maio de 2005.
Porto, 06 de Junho de 2005

22 Agosto, 2009

LEITURAS


Tantos são os dias em que me sinto como se a bússola parasse e parece que todos os caminhos se fecham para que não possa fugir. Será certamente esse afastar-me da presença das pessoas e dos amigos de alguém que me possa preencher o pensamento e alimentar a magia dos sonhos. Escondo-me na FNAC na procura dos livros como consolo do que não alcançamos. Procurava O Gato de Upsala e saiu-me No Teu Deserto. Creio que fiquei parado na primeira frase. Percebi que aquele livro seria um acto de ternura para alguém que está muito para além do que se chama amar, alguém que nos marca um tempo, um espaço, e preenche uma parte da memória que se torna inapagável. «Escrevi o teu nome em pedras de mármore com letras de fumo», escrevi um dia e todos os dias o céu se cobria com aquelas letras. Quantas vezes esquecemos que amar é um sentimento que está muito para além da paixão, da presença constante, amar será sobretudo, o sentirmos a ausência de alguém, a falta de uma pessoa que transforma em gestos e sentimentos a alegria de nos fazer sentir em harmonia com nós próprios. Não há naquela história, naquele relacionamento humano, declarações de amor, palavras exaltantes, um entrechocar de corpos arrebatados, nem se chega a perceber se fizeram amor como ousamos dizer a essa entrega física, mas a vivência daqueles dias haveria de se tornar inesquecível. A Cláudia, uma menina adulta, tornou-se importante, pelo olhar, pela frescura da vida, pela beleza do corpo e dos gestos e pela ternura e o carinho que inseriu ao que poderia ter sido a desumanidade de uma viagem por uma paisagem bela e agreste, de tal forma que o personagem masculino na sua "loucura" pelo trabalho que o fascinava, rapidamente se apercebia da sua ausência. Um abraço da Cláudia no estertor de um dia arrasador, compensava todos os silêncios e solidões da Terra. Nas palavras da Cláudia também ele, o fotógrafo, o realizador, o homem adulto, viajado, desorganizado e inconstante acabava por lhe transmitir o conforto da experiência de uma sabedoria que só o passar da vida nos dá naquela medida tão necessária quando crescemos no interior de um quotidiano agressivo. E a história que nos é contada é a simbiose dessas necessidades que se encontraram num determinado tecido e num determinado espaço. Certamente não teria existido noutra qualquer circunstância e a Cláudia teve a lucidez de perceber que aquela viagem terminou na travessia para Gibraltar. Tentar prossegui-la num outro contexto seria perder aquela amizade que ali cresceu e viveu, mas que se deterioraria se prolongada para além das condições que a fez nascer e é esta tem sido uma das grandes questões das relações humanas. Quantas vezes perdemos companhias extraordinárias por não entendermos que o relacionamento entre as pessoas deve sobretudo visar o bem estar que tanto procuramos e que a procura do outro face a uma necessidade, não deve ir para além desse momento, pelo menos da mesma forma ou com a mesma intensidade. Quantas vezes pergunto a mim mesmo se nessa procura constante de poder ser útil aos outros, fazer algo para os sentir felizes, não perco no exagero e não percebo atempadamente que devo estar um passo atrás.

22 Julho, 2009

POEMAS


Amor, quantos caminhos para chegar a um beijo,
que solidão errante até chegar a ti!
Os comboios continuam vazios rolando com a chuva.
Em Taltal a primavera não amanheceu ainda.

Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,
juntos da roupa às raízes,
juntos pelo outono, pela água, pelas ancas,
até sermos apenas tu e eu juntos.

Pensar que custou tantas pedras que o rio arrasta,
a embocadura da água do Boroa,
pensar que separados por comboios e nações

tu e eu devíamos simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

20 Julho, 2009

POESIA AO AMANHECER


Bom dia, Amigos

Pois há muito que ao fim da tarde não ia por esse Portugal fora e ontem lá me encontrei algures às sete da tarde, a norte de Amarante numa aldeia qualquer, no meio de uma imensidade de verde, florestas que cobriam as montanhas cercando o povoado, o sossego das gentes, lugares pousados nas encostas e cobertos de sol, a igreja chamando para a novena, flores rosa cobrindo os muros, uma gaiola enorme de catatuas e rompendo o imenso calor e o silêncio do fim de tarde, o som magnífico de água caindo num lago. E os citadinos a gastarem fortunas em condomínios fechados, encerrando-se em quatro paredes chamando a isso, qualidade de vida!!!
Enfim, hoje lembrem-se de mim, pois é o Dia Mundial da Criança e embora sendo um dos homens que nunca foram meninos, recuso-me a ser adulto.

SAUDADE

Não digas,
Não acenes,
Não te lembres.
Que se mantenha mudo, hirto e sem memória
O nosso adeus eterno.
E que o poeta, do seu negro inferno,
Cante como puder
A trágica aventura de encontrar
E perder, a sonhar,
O teu aberto corpo de mulher.

MIGUEL TORGA

A música transporta-me a um mundo em que a dor não deixa de existir, mas se alarga, se tranquiliza, torna-se ao mesmo tempo mais suave e mais profunda, como uma torrente se transforma em lago.

MARGUERITE YOURCENAR, in “Alexis ou o Tratado do Vão Combate”

A economia de guerra conduziu a um racionamento brutal e desencadeou o movimento grevista de 1944, que incendiou parte da cintura industrial de Lisboa. A greve de Alhandra foi o derradeiro grito de revolta concertado contra Salazar.

MANUELA GONZAGA e RUI GOMES COELHO, “Temos Fome”, in "História”, Maio de 2005

Porto, 01 de Junho de 2005

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