Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

11 junho, 2007

LEITURAS


Não é a primeira vez que olhamos para as pessoas ou para os espaços e fazemos juízos de valor com base em informações anteriormente adquiridas ou que, por uma razão ou outra, fomos formando quase sem pensar e, um dia, quando verdadeiramente necessitamos de olhar com olhos de ver, deparamo-nos com esse juízo construído a condicionar o nosso pensamento ou, somos surpreendidos por uma informação que, colide de todo com toda a construção que povoava a ideia que pensávamos ser a correcta.
A cidade da Póvoa de Varzim fica a 30 kms a norte do Porto e com toda a franqueza não gosto da Póvoa, não me seduz, não me atrai, não encontro naquele espaço algo que me leve até ao seu território. Pergunto a mim mesmo, a razão de tal assim acontecer. Há cidades, há aldeias que gostamos muito antes de as conhecermos e, quando por lá passamos é como sempre lá tivéssemos vivido. Outras, das quais possuíamos poucas informações, encantam-nos à primeira vista. A Póvoa não. Era um local de passagem. A caminho de Viana, ou da Galiza a EN 13 condenava-nos ao inferno que era a travessia da cidade e só quando alcançávamos Navais respirávamos um pouco e nem sequer olhávamos para trás. E era estranho, porque a Póvoa de Varzim era motivo de visita. Dizíamos, vamos à Póvoa e raramente dizíamos, vamos a Vila do Conde. Depois, a Póvoa, ao contrário de Vila do Conde, não possui centro histórico, essa parte do burgo onde as pedras nos contam histórias e relatos da vida dos Homens. Mais pequena e mais recatada, Vila do Conde, cativa-nos muito mais. De monumental, apenas Santa Clara com aquela imponência debruçada sobre o rio. Acresce que a Póvoa tem uma Praça de Touros e, não sou adepto, nem sei como ainda sobrevive aquele espaço de espectáculo de violência gratuita a que os ribatejanos chamam, valentia e galhardia. Vá-se lá saber porquê. No entanto, ainda haviam recordações da Póvoa, a praia, o mar, o Diana Bar, a estação do caminho-de-ferro, mas…. Um dia, iniciaram a variante à EN 13 e libertaram-nos a passagem pelo centro da cidade, passamos a vê-la ao longe e foi aí que a nossa atenção foi despertada para a monstruosidade que nascia nos limites de Aver-o-Mar. Se a marginal da cidade já era uma barreira de betão, ali eram torres que só podiam significar um monumento à irracionalidade humana, à incompetência e à ganância dos Homens quando bordejam os corredores do poder, mesmo que a nível local. Dizem-me que o grande artífice de tal obra foi um padre de nome Manuel. O apelido, não retive, porque ele há coisas, sejam nomes ou não, que é preferível deixarmos derreter para não sentirmos esse sentimento de revolta que nos afoga. Mais tarde, uma outra personagem ganhou as eleições para a câmara, afastando o tal de Manuel e aqui entraram os pressupostos que já tinha gravado. Olhei e tive a sensação que só iria mudar o grupo de interesses. Afirmo-o no condicional, mas continuo sem saber a resposta, embora saibamos como tudo se passa nesta nossa democracia que tantas vezes acreditamos cheia de pureza. A partir daí, perdi o rasto à Póvoa, não me despertava interesse. Uma ou outra vez tinha de me deslocar por motivos profissionais, mas não chegava a mergulhar no coração da cidade e a única viagem que tinha programado era apenas para experimentar a linha vermelha do Metro. De quando em vez, ao vir do Norte e ao chegar ao km 33,000 da A28 e olhava em frente e ali estava visível a obra que a tontice humana e os altos interesses, tantas vezes deixam a castigar o tecido urbano. Apesar de tudo, não esquecia que a Póvoa de Varzim não é só a cidade, mas também a aldeia, marítima e rural, terra de pescadores e de pequena propriedade, de estrutura mental, tradicional, profundamente religiosa, observadora de costumes e símbolos que evoluem de forma lenta para os avanços do que chamamos modernidade. Aldeia, onde é possível encontrar um quadro monumental muito rico, maioritariamente religioso, naturalmente e com uma cultura representativa dessa tradição preservada. Esquecendo a cidade e olhando do mar para a terra, a Póvoa de Varzim, atrai-nos.
Bem, era assim que pensava até a mão generosa de uma amiga há uns tempos atrás me oferecer uma Revista de Cultura Literária da Póvoa de Varzim. Há cerca de dois anos, dei conta que na cidade da Póvoa no início de cada ano realizavam-se Encontros literários a que foi dado o nome de Correntes D’Escritas. Na altura procurei na Net e fui ganho pela ideia, mas este ano, por uma ou outra razão, acabei por não poder ir. Até que a oferta me trouxe de novo esse naco de cultura até mim. Com muita expectativa abri e ainda não refeito do primeiro impacto provocado por um poema de José Gomes Ferreira, dou comigo a ler a introdução escrita pelo Presidente da Câmara, o tal em quem não reconheci mudança quando o olhei a 30 kms de distância. Intitulou o escrito de “Na cidade da cultura e da paz”, o que já só por si não é pouco, para dizer que era o “testemunho de um anfitrião feliz”. De seguida, deambulou pela cultura, que é o mesmo que dizer, pela vida dos Homens, enquanto seres sociais, pelas sociedades, sobretudo urbanas que criou e deu a conhecer os seus projectos e os seus anseios. Conheço pouco as realidades municipais, mas não me lembro de ter encontrado um discurso assim, mesmo quando um presidente de câmara fala de cultura, porque isto de ligar a escrita e a cultura à paz e à felicidade no sentido do bem-estar das pessoas e das comunidades, não é para todos, nem se encontra todos os dias. Já tinha ouvido falar no grande sucesso da Biblioteca da cidade de Beja e, agora, encontro o mesmo entusiasmo aqui tão perto na cidade da Póvoa de Varzim que, afinal, não conheço.
Não sei como este presidente de câmara consegue conciliar tão nobres ideias com o projecto político que abraça e numa sociedade tão conservadora como a poveira, ou se o muito que afirma não passe de intenções que não chegarão a lado algum. Mas para além de questões que terá de ser este José Macedo Vieira a resolver, face aos 8 Encontros de Escritores já realizados, temos de, no mínimo, oferecer-lhe o benefício da dúvida. Por mim, prometo que não faltarei ao 9º Encontro e quando viajar de Metro não será para conhecer a Linha Vermelha, mas antes para ir nesta linha, conhecer a Póvoa de Varzim e, prometo ainda que ao km 33,000 da A28 irei procurar olhar um pouco mais além do que as torres que tapam o horizonte, pois na verdade, na vida, há barreiras, mesmo que arquitectónicas que só servem para nos desviar a atenção do essencial.

1 Comments:

Blogger Lurdes said...

Falavas deste, não era?!?

Beijinhos

9:54 da manhã  

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