Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

27 outubro, 2006

CONTOS


Recordações

“Brincas todos os dias com a luz do universo
Subtil visitadora, chegas na flor e na água” (1)

Encontrava-se dentro do carro olhando em redor com serenidade e alguma expectativa. Haviam anunciado chuva para aquela manhã, mas afinal estava sol. É certo que não era forte, mas suficiente para aquecer o corpo protegido que tinha vindo para a chuva. No entanto, não lhe perturbava, nem o estar, nem o pensamento. Aguardava e um sorriso bailava-lhe no rosto. Se alguém olhasse com atenção, perceberia com facilidade que o pensamento daquele homem se encontrava noutro que não naquele local o que era verdade, ou melhor, encontrava-se com intervalos ali e além.

“Disseram-me que tens aparecido muito bonita
com a beleza da juventude que só as mulheres possuem” (2)

Há dois dias chegara à aldeia e tudo indicava ser aquele um acidente de rotina, pelo que procurou a personagem com a naturalidade com que tantas vezes já fizera. Contudo, não o encontrou e ao indagar nas redondezas foi aí que começou a pressentir que o desenho ia ser diferente desta vez. Agora já sabia que era muito diferente. Começou a encontrar silêncios e evasivas e à segunda ou terceira tentativa ficou a saber que o indivíduo já não existia. Continuou a procurar, um pouco mais à frente, numa outra aldeia, num outro local e a vida daquele homem ainda jovem ia aparecendo à superfície de águas muito turvas, facto que o levou a avançar com mais cautela, pois adquiriu a certeza que mergulhava num mundo nocturno onde o negócio da droga ditava leis. Quanto mais avançava no conhecimento dos factos, mais difíceis se tornavam as respostas e mais silêncios encontrava e ainda não percebera se o papel daquele que era um mero interveniente num acidente, único aspecto que lhe interessava, era um pião ou uma peça mais importante daquele xadrez e este facto era urgente conhecer, pois iria ditar as precauções no agir futuro. Foi assim, que conseguira chegar ao contacto com aquela mulher que agora esperava na expectativa de que lhe revelasse as partes em falta daquele jogo de procura. Era pois a Maria Teresa que o tinha levado até àquele cruzamento de estradas e a sua expectativa residia em saber, não só o que poderia vir a ser revelado, como também em conhecer aquela jovem que aparentemente havia sido a companheira do Jorge Macedo até à sua morte.
Mas o pensamento de Hélder não conseguia fixar-se na sua tarefa. Outro facto levava-lhe de quando em quando as ideias para mais longe, à procura da imagem de uma outra mulher. Na verdade, estava apaixonado. Era uma daquelas paixões que uma ou outra vez lhe assaltava a vida e o fazia mergulhar num mundo à parte. Conhecia os sintomas desde a adolescência e desde que detectava a sua chegada preparava-se para a viver com as formas de um ritual. Sabia que a sua imaginação o fazia transportar para outros mundos e a sua criatividade florescia como as flores de cerejeira nas primaveras que chegavam cedo. Desta vez, nada fora diferente. Marian aproximara-se com suavidade quando, como costumava dizer, fazia uma daquelas longas curvas da estrada que parecem não ter fim. Um dia olhou e ela lá estava com um sorriso moreno, o olhar gaiato de que é jovem e o rosto irrequieto como quem deseja encontrar-se num movimento perpétuo. Mas longa era a curva, muito mais longa que o normal e demorou tempo a alcançar o início da recta onde tudo se torna perfeito, até que no fim do último Inverno, talvez por naquele ano o calor chegar com antecipação, a paixão brotou como um fruto pronto a cair da árvore onde se encontra há meses a aguardar que o tempo proceda ao seu desenvolvimento. A partir desse momento, o mundo transformou-se, a geografia alterou-se e a própria história teve de ser reescrita.

“Sossegava já o alvorecer
quando te vi chegar
por entre grinaldas amarelas
e a doçura da canela
que naus invisíveis traziam do resto do império” (2)


Hélder nunca tinha sabido explicar, nem a si próprio o seu comportamento perante circunstâncias que pareciam acontecer a toda a gente, mas para as quais tinha uma atitude diferente. Sentia pelas mulheres enquanto parte feminina do ser humano um carinho que fazia transbordar qualquer rio do leito, por muito profundo que este fosse. Talvez resultasse da ternura que irradia dos seus gestos, da sua presença e então quando se apaixonava, passava a encará-las ainda com mais reverência. Era como se claramente definisse dois espaços e as colocasse dentro daquele que deixava de ser profano. Ganhavam então a dimensão de deusas, pelo que ficavam numa posição mais difícil de alcançar porque os deuses podem ser amados, mas não possuídos. Começava pois uma longa caminhava para uma meta que não existia, mas em cujo percurso era necessário que se superasse. Pelas etapas que se sucediam restava muitas vezes aquele sorriso, sinal de que viajava através da imagem para junto da mulher que amava. Pensava pois em Marian naquela manhã de espera, em como tinha passado o Verão a tentar descobrir forma de abandonar o seu espaço profano e aproximar-se daquele outro onde residia alguém para quem tinha uma flor cheia de pensamentos para oferecer.

“E a tua voz soou ao longe
trazida pelo campanário de uma aldeia recôndita
enquanto as palavras esvoaçavam na planície
ao encontro da minha alma esquecida” (2)

Um carro parou e do seu interior saiu quem aguardava, quebrando-lhe o sorriso enigmático que alimentava há minutos. Maria Teresa era uma mulher jovem, simpática, sem ser bonita. Questionou-o sobre o que pretendia e foi rápida nas respostas. Não queria falar, desejava apenas esquecer, com sinceridade ou não dizia pretender deixar para trás e para sempre o esquema de vida onde tinha permanecido alguns anos em companhia de alguém que já não existia. A Marta chorava e quebrava o ritmo da conversa. Era uma criança de 6 anos, uma das duas com que ficara como herança do passado recente. Continuou lacónica apesar de falar com rapidez, procurando libertar-se daquele conjunto de perguntas com que lhe assolavam o pensamento. Por vezes, ajudada pelo choro da Marta colocava agressividade nas palavras. Ao fim de dez minutos partiu sem deixar pistas que pudessem conduzir a algum lado, ou a respostas concretas.
Fazia o caminho de regresso e procurava na imaginação soluções para as questões que o atormentavam sobre o caminho a seguir agora, por onde recomeçar, qual a ponta certa para pegar e em cada curva da estrada lá regressava a imagem daquele rosto que lhe vinha ocupando os dias e também aí se manifestavam as suas interrogações sem resposta. Contrariamente às ocasiões anteriores, Marian encontrava-se mais distante, era como se estivessem separados por um rio e sendo necessário construir uma ponte não sabia onde seria o local ideal para que não ruísse e apesar de estudar todas as hipóteses encontrava-se longe da solução. Pelo menos, a sua presença mesmo que imaginária, ajudava-o a superar as agruras, motivava-o para a procura de algo que lhe dava prazer, como se no meio das dificuldades e asperezas do quotidiano, encontrasse ali o prazer dos momentos felizes. Hélder sempre fora um idealista, não deixava de acreditar que o mundo que o rodeava e lhe impunha regras sem sentido, poderia ser diferente o suficiente para as pessoas se encontrarem doutra forma, deixarem de ser mais materialistas e passarem a ser mais sonhadoras. Talvez por isso vivesse num espaço à margem e tais aspectos reflectiam-se claramente nas suas paixões, pois estas eram mais uma simples manifestação de amizade do que o alcançar de um momento pleno sem dúvida, mas efémero. A dificuldade residia sempre em como fazer-se entender, como explicar que sem ser diferente, não era igual. A viagem daquele dia chegou ao fim sem encontrar respostas.

“Procuro nos confins do universo o caminho que me conduza a ti
mas hoje todas as estrelas amararam no céu.” (2)

As semanas passaram, Hélder voltou a insistir, tentou este e aquele caminho, atravessou atalhos e ruelas estreitas, aproximou-se quase da totalidade do conhecimento do que procurava. O Jorge Macedo tinha uma vivência nocturna profunda, sempre à margem da vida que se entende por normal, ou seja dentro das regras estabelecidas e que pelo menos permitem conciliar o essencial. Vivia com sobressaltos, com visitas nem sempre agradáveis, até que uma noite não pôde iludir a realidade em que vivia e os transportes que fazia. Retido numa esquadra e na vã tentativa de esconder a mercadoria, guardou-a dentro de si mesmo. Quando pressentiu que a sua vida se encontrava no limiar duma fronteira sem regresso, deu o alarme, mas era tarde. Morreu vinte minutos depois no hospital da cidade. A Maria Teresa desapareceu e alguns factos ficaram por conhecer. Ah! é verdade, tinha sido o responsável pelo acidente.

“Esta tarde respondeu a solidão ao meu chamamento
e, no entanto, vi-te passar rio abaixo
num barco sem ninguém
esfumando-se por entre névoas de fantasia.” (2)

Marian partiu em meados do Outono. Um dia, quando o tempo lhe acrescentou mais um ano à sua juventude, anunciou que partia à procura de avenidas mais frondosas onde o infinito parece mais puro e contém promessas mais belas. Encontrava-se na idade em que as mulheres explodem de alegria como se alcançassem o cume de uma montanha sagrada e esta sua viagem impediu que pela primeira vez Hélder conseguisse construir a ponte que lhe permitiria atravessar o rio que o separava da possibilidade de outra amizade. Despediu-se ao longe, um dia quando o silêncio da noite descia pelas paredes da tarde e guardou na memória, no recanto onde guardava os momentos mais serenos da sua passagem pela vida, a imagem de uma mulher muito bela que lhe fez preencher a imaginação e acrescentar mais pureza aos seus sonhos recônditos.

“Afago na memória a imagem do teu rosto
estendo as mãos para não te perder” (2)


(1) – Pablo Neruda
(2) – Pablo Miranda


Porto, Setembro de mil novecentos e noventa e sete.

2 Comments:

Blogger Lurdes said...

"construír uma ponte para atravessar o rio que o separa de uma nova amizade" - gostei particularmente deste pensamento.

Até eu quando aqui venho me sinto mais... importante!?! Este é um sítio de ode às mulheres! Estarei eu enganada?!?!

Beijinhos

12:27 da tarde  
Blogger GALILEU said...

Olá,
Não, não estás. É um fascínio sem explicação. Depois há um ligeiro conflito entre a realidade e a ilusão, mas o olhar é assim que vê, perfeito, belo,único.
beijinhos
Sede de Infinito

12:08 da manhã  

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