Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

13 dezembro, 2006

CONTOS


A sala nunca foi grande e consoante o número de pessoas que a ocupam parece maior ou mais apertada. Quando por lá começou a passar, era um mundo cheio de gente, escutavam-se vozes cruzadas e sentia-se um colorido de gestos e movimentos. Havia calor humano. Depois, como tantas vezes ocorre na vida, das pessoas, das organizações e das estruturas, de forma lenta, num processo gradual, quase sempre pensado, pequenas alterações vão ocorrendo, tão pequenas que só as sentimos quando já se acotovelam à entrada em escala suficientemente grande para serem visíveis e, aí já é tarde para o protesto, o retorno, o recuperar da alma perdida. Por ali, também foi assim, vê-se agora.
Há dias voltou àquela sala e apercebeu-se das mudanças. A sala é a mesma no seu tamanho, mas aquele calor humano que resulta da presença colectiva das pessoas já não estava, as cores pareciam quase cinzentas e os sons eram os do silêncio. Uma pessoa à esquerda, duas à direita, à esquerda e ao fundo, o chefe, sempre debruçado sobre um portátil, teclando, sempre teclando ininterruptamente, alheio ao círculo em redor, absorto nas teclas que carrega com rapidez e vontade, quase já ninguém sabe o que escreve, para quem escreve e o que diz. Escreve, simplesmente procurando não ser interrompido nesse teclar constante, supondo-se que assim dirige os serviços, não com voz, não com gestos, mas teclando, concentrado num diálogo surdo com o ecrã. À direita, também ao fundo e em frente ao homem que tecla, a deusa regressada à terra, mais inferno do que paraíso. Também ela concentrada, agravada por tanto isolamento, tanto desperdício, tanta exigência sem sentido. A única nota de registo foi quando, pressentindo gente estranha, ergueu o rosto dos papeis com atraso e olhou, olhou ao longe e um sorriso apareceu. Por força da rotação da terra, o sol entrou naquele momento, pelos longos vidros que separam a sala do exterior. Era um sol grande, quente e luminoso. O sorriso tem esse efeito. Afinal, alguma coisa tinha restado do passado.

1 Comments:

Blogger Lurdes said...

O poder de um sorriso!
Beijinhos

10:28 da manhã  

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