Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

01 fevereiro, 2009

LEITURAS


"Descia cada vez mais fundo na água do tempo. A funduras insuspeitadas. Longe – oh! muito longe – dos malmequeres das actínias, do borboletear, colorido, dos peixes, das luas das águas-vivas, da floração do coral, da ondulação, fosforescente das algas, de estranhos animais que se abriam sobre a presa como flores mortíferas a despetalar-se, ou do grafismo, frágil, das hastes ondulantes. Isso eram ainda os jardins do mar e daquelas lindezas, “ramos prufeitos”, que às vezes vinham embaraços na nassa, lhe falava, outrora, o Manuel Neto. Perdiam-se na lonjura do antigamente. Descia fundo, cada vez mais fundo, onde a luz não chegava e as águas eram frígidas, como as dos mares dos pólos, duma solidão só povoada por criaturas gelatinosas, sem peso, anteriores ao tempo e ao homem, que de noite migravam até à superfície para se alimentarem e voltavam a mergulhar nas profundezas, antes do nascer do sol. Mas os seus olhos naufragavam, ainda mais fundo, sob toneladas de silêncio, sem ondas e estavam a chegar ao visco, limoso, de lamas geladas, escurecidas de fumos vulcânicos do chão do profundo, onde a vida é escassa, embrionária e fetal. E, ali, finalmente repousariam, berlindes cegos, destinados a apodrecer…"

[Do prefácio]

Nasceu em Vila Real, em 1927. Na Faculdade de Letras de Lisboa terminou o curso de histórico-filosóficas, mas não a licenciatura. “As minhas universidades foram as mulheres de A-Ver-o-Mar, que marcham aos trinta anos, vivem e morrem na resignação de ter filhos e de os perder, na rotina de um trabalho escravo, sem remuneração, espancadas como animais de carga, e que mesmo afeitas, num treino de gerações, às vezes não aguentam e se suicidam (oh! Senhora das Neves! E tu permites!) depois de um parto, quando o mundo recomeça num vagido de criança! Às mulheres de A-Ver-o-Mar devo a língua, ao rés do coloquial.”
Professora do ensino oficial, Luísa Dacosta começou a sua vida literária em 1955 com o livro de contos Província. No domínio da ficção, editou: Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu (1969) e Corpo Recusado (1985). No campo da crónica, publicou A-Ver-o-Mar (1980) e Morrer a Ocidente (1990). Na Água do Tempo (1992) constitui um diário, e no campo ensaístico e crítico escreveu Aspectos do Burguesismo Literário (1959) e Notas Literárias (1960).
Em 1970 iniciou a escrita de livros para crianças: O Princípe que guardava Ovelhas (1970), que foi distinguido pelo International Board on Books for Young People como um “excepcional exemplo de literatura com interesse internacional”; O Elefante Cor-de-Rosa (1974); A Menina Coração de Pássaro (1978); Sonhos na Palma da Mão (1990); Lá vai Uma Lá vão Duas… (1993); e outros títulos. Na sua actividade de tradutora, traduziu obras de Nathalie Sarraute e Simone de Beauvoir. Colaborou também em numerosos periódicos, de que podem destacar-se: Colóquio/Letras, O Comércio do Porto, Jornal de Notícias, Raiz e Utopia e Seara Nova.
Interessam-lhe sobretudo as temáticas dos quotidianos vulgares e a situação da mulher. Os seus livros situam-se num registo em que um sabor autobiográfico se mistura à crónica e ao conto.
Foi atribuído à sua obra Na Água do Tempo, em 1992, o Prémio Máxima. Em 1994 obteve o Prémio Calouste Gulbenkian da Literatura para Crianças para o melhor texto para crianças do biénio 1992-1994, e em 2001 foi apresentada pela Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil a sua candidatura ao Prémio Andersen pelo conjunto da sua obra para crianças. Também nesse ano foi-lhe atribuído o Prémio “Uma Vida, Uma Obra”, pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.
Em 2004, no âmbito da iniciativa da Cooperativa Árvore comemorativa dos 30 anos do 25 de Abril e dos 150 anos da morte de Almeida Garret, foi distinguida com o Prémio para a área do Ensino. Em 2007, o seu livro O Rapaz que sabia acordar a Primavera, ilustrado por Cristina Valadas, obteve o Prémio Nacional de Ilustração.
Em 2002, as Edições ASA iniciaram a publicação da sua obra completa.

Cheguei tarde à Póvoa, de Varzim, claro, onde passeio os meus silêncios e onde construo os diálogos com o amanhã. Ia longa a tarde, pelo que após a visita de sempre à Rua da Junqueira, fiquei pelo Bar da Praia em leitura final de «Um Olhar Naufragado» da Luísa Dacosta. Foi um fascínio até ao fim descobrir o diário desta senhora. Como pode ser pouco vendável, no dizer da sua editora? Não conheço os seus livros para além deste, mas terão de ter um traço de beleza idêntico. Não concebo outra forma. Sente-se nesta senhora uma grande solidão, 40 anos, diz-nos ela. A saudade de ter deixado Aver-o-Mar sempre presente. Não conseguiu esquecer aquele mar, aquela praia, aquele céu povoado de estrelas que via pela clarabóia. Na simplicidade das suas palavras sente-se a profunda tristeza pela morte da filha mais velha que lembrará periodicamente até às últimas páginas. De quando em vez conversa com a sua solidão, mas nem esses instantes retiram a grandeza e a beleza à sua escrita. É uma delícia percorrer o seu diário. Só na parte final se percebe que existiu um marido, quarenta anos atrás e termina este contar dos dias com a sua morte. Recusou-se a escrever após esse momento. Apesar da vivência com outra mulher, foi visitá-lo quando já era tarde para tudo, é certo, mas procurou-o com o carinho passado, «o homem que eu amei» como escreveu. Nos últimos dias de 2005, deixa ainda um retrato simplificado do percurso que foi a sua vida e fala sempre com imensa ternura dos seus amigos. Diz-nos de si após ter visitado a sua Vila Real:
Era uma sobrevivente, sozinha. E sobre o seu coração pesavam montanhas. As de água para sempre perdidas e a do Marão, ainda e sempre com o seu azul, amassado com violetas, as suas raízes, fundas como garras, cravadas nas vertentes, convulsas, do Cotorinho. Naquelas raízes, nas suas nascentes, ventos, aves, florinhas sem nome, se tinha inspirado para se definir.
“Raiz de pedra,
corpo de vento,
olhos de água.
Assim sou
Entre pássaro, flor e mágoa.”
Com o passar dos anos percebe-se que sente o esvair da vida e nessa sua solidão, onde tanto vejo a minha, há uma enorme tristeza que a leva a dizer que em alguns momentos procura,
Bafo humano. Calor de vida, para aguentar o meu coração, cada vez mais vazio, e o meu mundo a despovoar-se de afectos. Afectos que foram sempre a minha revoada de asas
.
Já mesmo no fim um acontecimento que em poucos dias gerou três mortes, sendo uma de um poeta levou a que escrevesse palavras amargas que não coincidem comigo no pensar da vida e não sei como se conciliavam com o seu amigo Manuel Lopes, mas quase não tem significado face à beleza que é o conteúdo deste diário.

1 Comments:

Blogger Casa da Árvore said...

Obrigado pela mão-de-obra excepcional.

A Casa ficou bem mais bonita.

8:07 da tarde  

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