Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

04 janeiro, 2008

CONTOS


Em certos momentos olham para mim com algum espanto, um pouco de estranheza ou com ar interrogativo, mas a maioria não repara, passam no seu atarefamento de procurarem o voo que lhes interessa ou na alegria da chegada. Por mim, não incomodo ninguém. Para aqui estou, sentado, olhando o horizonte próximo, aquele local onde te escutei as últimas palavras e te observei o rosto pela derradeira vez. Como estavas bonita, linda mesmo. Cada vez que recordo esse instante, mais bonita te lembro. Estavas calma, sorriste, foste meiga como sempre, por todo aquele tempo em que a minha distracção me condenou. Agora passo as horas no átrio do aeroporto. À tarde vou para o Café junto à praia, olhar o mar. Não faço nada. Já não leio, não escrevo, não recolho apontamentos. Deixei cair tudo. Limito-me a olhar e a pensar em ti e em todos os momentos em que me fizeste feliz. Como podemos distrair-nos tanto e não perceber os sinais e as mensagens que nos enviam? Tudo parecia eterno, definitivo, sem contestação. Chegava e tu estavas à espera e não consegui pensar que essa postura passiva não se podia coadunar com a mulher livre que me tinha seduzido e encantado. Tu aguardavas por uma palavra, um gesto de carinho, um momento de ternura. Hoje que te perdi, volto o olhar para esse tempo e todas estas dúvidas, não eram dúvidas, eram distracções minhas, me parecem claras. Só tinha de parar um momento e reflectir. Não chega nós estarmos bem, devemos supor que os outros têm o mesmo desejo e, como tantos, também olvidei esse pormenor tão elevado. Actualmente já nada adianta, a vida tem de ser vivida a cada instante, não é para olharmos para a retaguarda e pensar que tudo se recompõe e que é possível fazer o que não fizemos quando devíamos. Os sentimentos humanos não são coisas que se possam recompor. Quando a noite começa a tombar sobre as águas do mar, não aguento mais. A noite esmaga-me, aperta-me o peito, destroça-me a alma, embarga-me a voz. Já não falo, apenas murmuro. Pago o café e saio, venho para o aeroporto onde te vi na vez derradeira. Pelo menos, aqui há luz, luminosidade e aguento mais este aperto que me consome. Como eras bonita e ali sempre ao meu lado, sempre atenta, com aquele sorriso que me desvairava e que transbordava dos lábios para o olhar. Despediste-te ali na entrada para o controlo, onde estão agora aqueles dois abraçados porque um vai partir. Nós não nos abraçamos. Nesse dia cheguei cedo a casa e tu aguardavas por mim, com calma, pelo menos controlavas os gestos. Vi-te o saco de viagem, simples, pequeno como sempre gostastes das coisas. Não sei porquê, senti um terramoto dentro de mim, mas ainda consegui perguntar se ias a algum lado. A resposta, estou em crer já não terei ouvido. «Sim, vou partir, estou cansada de esperar por ti, estou cansada de viver com alguém sempre muito ocupado, a correr de um lugar para o outro sem quase reparar que aqui estou e, mesmo quando aqui e além paravas por uns momentos, tinhas coisas tuas para fazer e, eu aqui a olhar-te e só de passagem me tocavas no rosto e dizias olá. Há quanto tempo, não paras para me olhares nos olhos? Ainda te lembras da cor dos meus olhos? Desculpa, não estou a ralhar-te, estou só a dizer-te, a dar-te uma razão para esta partida. Não queria ir, continuo a gostar muito de ti, mas não posso continuar à espera que repares em mim. Podes levar-me ao aeroporto?» Agarrei no saco e trouxe-te. Percebia que o meu mundo estava a desabar e não conseguia fugir, nem falar. Não te queria perder, mas não conseguia falar. Também creio que tive consciência de que a última coisa que podia dizer era pedir-te outra oportunidade. Talvez tenha sido o único aspecto lúcido que se formou no meu pensamento. Nestas ocasiões não há segunda vez, porque na vida das pessoas só existe uma vez e a experiência demonstrou que a promessa nunca é cumprida. Não conversamos e mantivemo-nos calmos, melhor, controlados. Bem, eu era um vulcão em efervescência em luta contra as minhas próprias forças. Fazia-me melhor não falar. Tinham decorrido duas horas desde que chegara a casa. Foi o tempo que demoraste a partir. Nos minutos terminais ficamos frente a frente e foste ainda tu que falaste. Que não levasse a mal, nem me zangasse, mas que não tinhas alternativa. Precisavas de estar só, disseste, para repensar toda a tua vida. Precisavas que te fizessem sentir bem e feliz e para que tal ocorresse tinhas de ter alguém ao teu lado. Passaste-me a mão pelo rosto e foi esse afago o último gesto teu. Que te esquecesse, disseste e procurasse outra pessoa, pois também merecia ser amado. Ainda pensei abraçar-te, tocar-te nos braços, sentir o teu corpo encostado ao meu, perceber-te as formas nesse contacto. Mas preferi não o fazer, só aumentaria aquela dor que já estava a sentir. Pegaste na minha mão direita e disseste, «até logo, quero muito que sejas feliz». O que se passou a seguir, não recordo com clareza. Entraste na área reservada e acenaste com o braço antes de desapareceres para sempre. Só no amanhecer do dia seguinte, após uma madrugada em que não consegui que a barreira tão duramente construída conseguisse suster aquele avolumar de água que se acumulou no interior do olhar dei conta que o carro tinha ficado no aeroporto e, até hoje não sei como fiz para voltar a casa. O tempo foi passando e alterando o ritual da vida. Agora que não estás, passei a ter tempo para tudo. Aliás, deixei de fazer fosse o que fosse. Tenho a vida cheia das recordações que acumulei de ti. É como se estivesse a escrever um livro. Encontro-te por todo o lado e agora sei o quanto eras verdadeiramente bonita, o quanto gostava de ti. O quanto ainda gosto de ti. Creio mesmo que hoje gosto mais ainda do que quando estavas comigo, mas não quero falar no presente porque não estás, nem vais voltar a estar. Não voltei a procurar-te. Preferi assim. Quero guardar-te como te conheci e partilhei contigo tudo o que pudeste oferecer-me. Hoje, estarás noutro lugar e acredita, acredita mesmo, pese a dor que sinto, desejo muito que alguém te faça sentir tão bem como desejaste. Por vezes quando a madrugada me encontra a deambular pelos quartos e pelas salas da casa, relembro momentos belos que vivemos juntos. Recordas aquele dia que fomos em viagem e paramos numa aldeia junto ao mar e quiseste correr pela areia? Nesse dia tive tempo para ti. Corri no teu encalço e quando te alcancei caímos e por ali ficamos esbracejando na areia, esquecidos do tempo até que o mar nos veio lamber os pés e molhar as pernas, fazendo-nos acordar de um sonho para o qual tinha perdido a noção do tempo. Porque razão não foi sempre assim, porque haveria de esquecer que a vida tem de ser feita de atenções, de gestos, de pequenos instantes de magia? Como conseguimos esquecer sempre o óbvio. Deixamos que o outro se vá desgastando em esperas que não acabam e um dia chegamos a casa e estamos sós, nessa solidão tão profunda que nos converte em fantasmas. Que resta agora? Nada, o vazio, estas viagens entre o mar e uma sala do aeroporto e estas lágrimas que nascem na alma. Ao princípio ainda as aguentava, mas depois, deixei de me importar, passei a conviver com elas que esta dor de te recordar é imensa e não a aguento. Já não quero ninguém, deixei de ser sensível à beleza. Queria-te apenas a ti e não soube merecer-te. Nas noites frias de Inverno parece-me sentir ainda o teu corpo aconchegar-se às formas do meu e aquecermo-nos mutuamente, até que entendo que a imaginação ficou fértil. Estendo a mão e percebo um imenso vazio. Acendo a luz para ter a certeza e não há ninguém. Vejo-te o rosto porque o trago sempre comigo. Afago-te os olhos e afasto-te o cabelo com delicadeza com ternura como nunca me lembro de ter tido quando estavas aqui. Depois, rebenta tudo porque esta dor amarga não é fácil de conter. São horas de grande angústia madrugada dentro. Noutras ocasiões, convenço-me que me telefonas que me podes enviar mensagens. Sei que não é possível, nem vai acontecer, mas não resisto à tentação de espreitar o mostrador do telemóvel e sinto nova derrota. Quando me aproximo do esgotamento, deixo de sentir, de ter qualquer reacção. Sento-me nas escadas, olho para a porta e parece-me ver-te chegar. Não parece, chegas mesmo, pois reconheço os mais ínfimos pormenores do teu rosto, desse sorriso que colocas quando olhas para mim. Levanto-me, abraço-te a cabeça e cubro-te de delicados beijos. O aeroporto vai fechar, Os últimos passageiros já nem sequer reparam em mim aqui sentado, sem nada, sem ninguém. Ergo o corpo para partir antes que me venham mandar embora como já aconteceu. Olho ainda uma última vez para o local onde te perdi para sempre. Revejo o desenho do rosto que aprendi a amar e que tanto amei, à minha maneira é certo, mas que amei de verdade. Só por isso sinto a tua falta com esta angústia. Gostava muito dos teus olhos, de passar os dedos por aqueles traços finos que lhe davam aquele ar gaiato que te ficava tão bem. Vou a pé, rua abaixo que agora já não trago carro. Prefiro sentir esta ventania a açoitar-me a cara. Arrefece-me um pouco este aperto que sinto na alma e que me rebenta. Sigo rua abaixo, sem destino apesar de saber que vou para casa. O farol que me guiava, desapareceu. Não tenho avisos, nem focos luminosos a atraírem-me. Amei uma mulher de olhos doces, mas não soube amá-la. Amar não pode ser só gostar de alguém. Esse foi o erro que cometi e agora pago amargamente esse descuido. Amar é também prestar atenção ao outro, fazê-lo sentir-se bem, estar presente quando um olhar nos chama e aprender a perceber com antecedência as necessidades do outro. Um companheiro é a nossa outra metade, a que nos chama e a que precisa de nós. Agora é tarde. Uma noite sem data essa mulher excepcional que não soube amar, deixou-me só na sala de um aeroporto. Para sempre.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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5:06 da manhã  

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