Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

14 dezembro, 2007

POESIA AO AMANHECER


Bom dia, meus Amigos

Nunca tinha passado na A14 e quando passei lembrei-me de uma história com 30 anos. No Verão de 1972 era um dos responsáveis por uma célula de organização, estou a falar de política, e mais ou menos em Setembro um dos seus elementos ao distribuir propaganda junto ao porto de Leixões, foi preso. Éramos todos muito jovens, hoje, com vinte anos, até nos chamariam crianças, mas naquela altura já nos tinham obrigado a ser adultos. Mas a juventude por vezes tem o seu preço e, aquele jovem falou. A partir daí foi um cortejo de prisões até que chegou a vez do elemento que comigo repartia a responsabilidade (ao fim de 20 anos, viemos a encontrar-nos de novo na AXA, hoje somos companheiros de trabalho). Digamos que a partir da sua prisão, a minha vez era uma questão de tempo. Não chegou a acontecer, porque fui "adormecido". Fui viver para a Figueira durante dois meses. Já lá estava há mais de um mês quando um dia depois de almoço decidi tomar o comboio para Coimbra e sair em Montemor. Era um dia de Fevereiro de 1973, estava frio, mas fazia sol ameno. Eram dias mais calmos, o stress ainda não tinha chegado e eu também não tinha nada para fazer, viajei na porta do comboio a contemplar a paisagem. Não me lembro da estação, mas sei que caminhei para a vila por uma estrada ladeada de árvores, muito bonita e sentei-me na borda de um ribeiro a comer uma lata de sardinhas de conserva que tinha levado como lanche. Nessa altura, trazia no olhar, no pensamento, nos gestos e em tudo o rosto da minha segunda paixão. Chamava-se Ana Maria e nunca mais a vi. Quando cheguei a Montemor já passavam das 16,30h e mal tive tempo de subir o morro para ver o castelo. Cheguei já depois da hora do fecho e o guarda teve a gentileza de me deixar dar a volta pela muralha. Assim fiz e quando cheguei à ala Oeste parei de espanto face à imagem que tinha na frente. O Castelo está sobranceiro ao resto do espaço. Em direcção ao mar estende-se um imenso terreno plano cheio de arrozais. No mar da Figueira, o vermelho do sol descia sobre o horizonte e espelhava sobre as águas inundadas das margens do Mondego. Acho que fiquei uns cinco minutos extasiado a olhar e a memorizar aquela fotografia. Nunca mais a esqueci. Anos mais tarde tentei repetir a cena e não resultou. Há coisas que ou se vivem no momento próprio ou nunca mais se vivem. Não sei porquê naquela beleza que pude contemplar havia muito da Ana Maria. Guardei essa recordação com um certo carinho ao longo dos anos. Agora quando passei na A14 ao aproximar-me da portagem, olhei e lá estava o castelo, soberbo sobre a paisagem com a vetustez das suas pedras banhadas pela serenidade do sol em mais um fim de tarde.

VIOLENTÍSSIMA TERNURA

Que a vida fosse a mesma festa sempre
e os olhos encontrassem teu sorriso
um pouco mais de tempo e era a felicidade
um pouco mais de céu e era o paraíso

comecei devagar, em dúvida de tudo
até saber que o ontem, para ti, fora de menos
pouca sorte, pouca vida, pouco amor
e aí senti o que se sente e não dizemos

e tudo o que soubemos acabou
e aquilo que começou nós não sabemos

e pouco a pouco tudo agigantou
que era demais e os olhos já sabiam
e aquela intensidade apenas confirmou
o futuro que as mãos não conheciam

fica a certeza de um início assim bonito
e no silêncio pressente-se a loucura
o turbilhão intenso subindo como um grito
e inexplicável, violentíssima, a ternura

e tudo o que soubemos acabou
e aquilo que começou nós não sabemos.

PEDRO BARROSO, in "Das mulheres e do mundo"

"Mas o vaidoso não o ouviu. Os vaidosos nunca ouvem senão os elogios."

ANTOINE SAINT-EXUPÉRY, in "O Principezinho"

"O assassinato do xeque Yassine, fundador e líder do movimento Hamas, não augura nada de bom quanto ao debate em torno do plano que Washington pretende aplicar no mundo árabe. Esta enésima versão das ambições dos Estados Unidos consiste em fortalecer, em nome da «democratização», o seu controlo das riquezas petrolíferas e dos mercados da região, bem como da impressionante cadeia de bases e instalações militares completada desde a guerra no Iraque."

GILBERT ACHCAR, "A nova máscara da política americana no Médio Oriente", in "Le Monde Diplomatique", Abril de 2004

Porto, 22 de Abril de 2004

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