Sede de Infinito

Infinito é o que se encontra para além de tudo, do conhecimento, da imaginação, do alcance da mão. Ter sede do que se encontra para lá da linha do horizonte é a imensa vontade de alcançar o que não vemos, o que não possuímos, o que não conhecemos, é por fim, uma forma de perseguir o saber e o conhecimento, se assim o desejarmos, conduzir o sonho através do tempo.

09 setembro, 2006

GUERRAS E CRIMES

Requiem por uma terra
de ecumenismo

António Manuel Hespanha
Historiador


Estava a ler o livro do libanês Amin Malouf (n. 1949), Origines (2004, Difel, 2004 [prémio Mediterranée]), quando deflagrou o novo conflito israelo-árabe. No seu livro, Malouf reconstitui, de uma forma muito interessante de ler para quem é historiador, a história da sua família desde os meados do século XIX. Trata-se de uma família de letrados e religiosos rurais, de uma aldeia da aba oriental do Monte Líbano, no hoje tristemente célebre vale de Bekah. Eram católicos melkitas, da vaga obediência papal. Mas um ramo da família frequentara escolas protestantes americanas, estabelecidas no Líbano ainda no século XIX e acabara por se converter. Viviam numa região onde haviam muçulmanos, (embora deles não se fale tanto), cristãos maronitas e drusos. E, para complexificar mais o quadro das crenças, o avô do autor – que ocupa o lugar central na história – era franco-maçon, obediência que se desenvolvera a partir de uma comunidade judia de Salónica, imbuída de ideais de laicismo, de universalismo e de tolerância religiosa. Letrado poliglota, elegera o árabe – realmente a sua língua materna – como veículo da sua produção literária, nomeadamente dos discursos que o celebrizaram na região como orador de circunstância para todas as ocasiões festivas – de todos os credos e de todas as raças.

As dificuldade de Boutros – assim se chamava este núncio da modernidade – foram naturalmente muitas, para se impor no seio de uma sociedade em que a tradição fomentava o despique das várias crenças e das várias etnias. No plano político, o seu cosmopolitismo apostava num fortalecimento do império turco, na versão laica, moderna e cosmopolita, que lhe queria Kemal Ataturk: um império onde pudessem conviver, em pé de igualdade, turcos sírios, árabes, curdos, arménios, palestinianos e judeus. Nas sequelas da I Grande Guerra, o imperialismo francês, inglês e, já, americano, haveriam de destroçar tudo isso, retalhando o império numa série de países, geralmente entregues a regimes monárquicos tribalistas, origem das dinastias que ainda hoje ou até há pouco, dominavam a região. Mais tarde, o projecto de implantação na região de um Estado judaico, reclamada pelas correntes sionistas, fora decidido pelas potências ocidentais, decisão que um político de tanta visão como o ex-vice rei da Índia inglesa, Lord Curzon of Kegleston (1859-1925); v. David Gilmour, “The Unregarded Prophet: Lord Curzon and the Palestine Question”, Journal of Palestine Studies, Vol. 25, Nº. 3 (Spring, 1996), pp. 60-68) classificara como “um erro cujas consequências nefastas durarão séculos”. Com tudo isto, as hipóteses do sonho de Boutros iam definhando. No plano religioso, o seu espírito era igualmente generoso. O seu Colégio Universal aceitava meninos de todas as religiões.

Que resta de tudo isto hoje, no que resta de Beirute ou das aldeias do vale de Bekah? Provavelmente muito na alma do povo, atavicamente habituado ao convívio com outros, pragamático e irmanado nos sofrimentos de uma guerra imposta. Retenho as palavras de uma jovem mulher libanesa, que ontem ouvi na televisão e que, numa linguagem repassada de tópicos literários árabes (cristãos e judaicos, também, afinal) sobre a santidade das palavras, dizia, referindo-se a quem lhe tinha destruído a casa a golpes de bombas: “Nem se lhes pode chamar ‘animais’, porque as palavras não podem ser insultadas!”.

in, “História”, Setembro de 2006

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